sábado, 18 de agosto de 2007

Nós Praticamente Sobrevivemos! - Parte 2: A Subida


Guardamos nossas câmeras no case e começamos a subida... ...quer dizer, mais ou menos. Começamos na verdade a descer. Isso mesmo, passamos pelo portal que achávamos que marcava o início da subida, mas assim que passamos por ele começamos a descer. Logo pensei que talvez tivéssemos pegado o portal de descida ao invés do de subida. Quem conhece as minhas estórias sabe bem que isso seria perfeitamente possível de acontecer. Resolvi dar um voto de confiança para a nossa "achância" de que aquele era o caminho certo e acreditamos que na verdade aquela era uma pequena descida para pegar embalo antes da subida. Depois de alguns minutos achamos que aquela descida já estava grande demais para ser a subida do Monte Fuji e tive certeza que estávamos no caminho errado. Foi então que perguntei para alguns brasileiros que estavam logo atrás da gente se aquilo era a subida. Imaginem a situação:




-Com licença, este é o caminho de subida mesmo? - Pergunto eu enquanto desço uma descida.


-É sim! - Responde o brasileiro, alguns metros abaixo do que quando eu fiz minha pergunta.




Eu, não sei por que ainda desconfiado de que tivesse sido mal entendido, ou que o brasileiro só tivesse respondido que sim sem ter ouvido minha pergunta, continuei:




-É que já faz um tempo que a gente vem descendo né...


-Não se preocupe, é assim mesmo. A gente desce um pouquinho antes de começar a subida - disse ele como se fosse a coisa mais normal do mundo.




OK, OK!!! Desculpem-me se estou sendo muito careta e se não tenho a mente aberta o suficiente para aceitar o diferente. Não sei por que raios eu pensava que se vc quer chegar ao topo de uma montanha a 3780m de altitude, o melhor que vc poderia fazer era começar a subir o mais rápido que pudesse, e de preferência evitando qualquer sentido oposto àquele que aponta para o objetivo lá no alto. Seguimos em frente com a certeza de que não deveríamos nos apegar aos valores tradicionais da lógica ocidental. Ou de que não deveríamos confiar em brasileiros "subindo" o Monte Fuji. Um pouco mais pra baixo finalmente encontramos uma placa apontando o caminho de subida numa pequena ladeira desviando para a direita. Tomamos o caminho que nos deixou mais confortáveis do que o anterior, mesmo agora tendo que fazer muito mais esforço.


Começamos, e em poucos minutos eu já estava me perguntando se teria sido uma boa idéia levar uma filmadora longe de ser leve, uma máquina fotográfica com 2 respectivas lentes parrudas e 4 baterias para garantir o funcionamento disso tudo. Para isso foi necessária uma mala/case inteira, que eu carreguei junto com mais 4 kg de líquidos. Logo, a Carol precisou levar todo o resto dos suprimentos sozinha. Ou seja, ela tinha que praticamente carregar o que seria normalmente divido por duas pessoas.


Apesar do peso nas costas e da perna sentir o esforço, a subida estava cansativa mas de certa forma fácil. Não havia segredos, andávamos ao lado de vários brasileiros, estrangeiros, japoneses, velhos e crianças, e na verdade íamos num ritmo bom, ultrapassando toda essa gente.



Em meia hora estávamos na sexta estação, a 2390m de altitude. Ficamos surpresos de ter chegado tão rápido no próximo estágio, então nesse momento eu achei que tudo iria ser mais fácil do que eu achava. Lá nós recebemos um mapinha indicando as altitudes de cada estação e o tempo previsto para a conclusão de cada etapa. Esse mapinha só foi completamente interpretado agora (está em japonês) o que me leva a corrigir, nós não começamos de 2600m e sim dos 2305m de altitude, depois descemos não sei quanto(!) e agora nos encontrávamos a 2390. Mas no momento que recebemos esse mapa achávamos que tínhamos saído dos 2600 e que agora estávamos a mais de 3000m. Doce ilusão...
Seguimos em frente e demos de cara com a nossa primeira decepção. A 7º estação estava demorando bem mais do que a sexta pra chegar. Fizemos o primeiro trecho em meia hora achando que o previsto era 80 minutos (na verdade era 45 min), e agora que achávamos que era previsto uns 30 minutos (na verdade eram 60m) e estávamos andando a mais de 50 min sem chegar nela.


Chegamos na 7º estação as 22h35, uma hora depois de sairmos da 6º. Achávamos que estávamos a 3360m, foi quando descobrimos que estávamos a 2700m ainda...Percebemos que estávamos vendo o mapa todo errado aqui (não que passamos a ver certo depois, só desencanamos dele) e que seria um pouco mais difícil do pensávamos nas últimas horas.


Fomos ao banheiro (doando compulsoriamente Y$100), comemos um chocolate, tomamos um pouco de água, e eu perdi a tampinha da garrafa de isotônico. Mas encontramos ela rapidamente, numa espécie de barranco de uns 4m de profundidade, inacessível para qualquer um que não tivesse equipamento de alpinismo. Procurei muito por uma outra tampinha, pois se não achássemos as únicas alternativas que teríamos seriam deixar a bebida lá para algum sedentário (pros burros: aquele que sente sede), ou então beber mais da metade da bebida de uma vez antes de subir os outros 1000m que faltavam.
Meu estômago sofreu...e a bexiga da carol tb.

Depois de preciosos 20 min perdidos com o episódio da tampinha seguimos caminho, mas logo em seguida paramos de novo. Demos de cara com uma fila pra escalar uma parede de pedras a uns 70º. Foi bom pra mim que estava com a barriga fazendo “blubgh! Blubgh!” esperar um pouquinho na fila antes de enfrentar tal subida. Pra Carol foi ruim, pensando que esse tempo que a gente demorou agora fez a gente demorar mais pra ir ao banheiro depois.


A partir daí as coisas ficaram mais interessantes. Sabíamos que estávamos longe do topo, estávamos ficando mais cansados, os caminhos começaram a ficar bem estreitos com longos desfiladeiros de pedras para os lados. Existiam trechos de “falling rocks” que eu prefiro chamar de “rolling stones”, existiam placas indicando qual era o caminho de subida (muito útil essas placas já que logo no começo o caminho de subida era uma descida), e uma delas era em português.


Num primeiro momento fiquei só surpreso por existir uma placa para os brasileiros (são os que falam português no Japão) lerem. Mas depois que confirmei que aquela era a única placa indicando a subida em português imaginei que eles soubessem que todos os “portugueses” detêm o conhecimento de que o caminho de subida é pro alto (salvo raras exceções), e que aquela placa era só pra confirmar pra algumas pessoas mais inseguras, como eu.
Demoramos quase 2h até chegarmos na 8º estação a 3100m, dentro do previsto. Havíamos vencido o trecho mais longo da jornada e até agora o mais difícil. Sentíamos a falta do oxigênio no peso das pernas e na dor de cabeça. Sentamos, demos uma respirada no nosso oxigênio em garrafa, fomos ao banheiro pago, descansamos mais um pouco, colocamos umas blusas e encontramos um conhecido!


O Gustavo, que conhecemos quando trabalhamos na Sony, e era um dos que haviam combinado de subir junto com a gente mas que havíamos desencontrado. Ele tinha começado a caminhada uns 50 min depois da gente e estava lá, na nossa frente, suado pra caralho, de regata e com seu ipod no ouvido. Precisamos chamá-lo 5x até ele nos perceber. Saquei uma das blusas extras da mala e dei pra ele (que só estava com aquela calça, a regata e mais nada pra se proteger do frio).


Descansados (não totalmente), comidos, bebidos e mijados seguimos nossa jornada. A parte "fácil" havia acabado. Daqui pra frente o inferno estava presente.
Não que eu imaginasse que chegar ao topo seria fácil, achei que seria mais difícil do que foi até a 7º estação. Achei que seria como entre a 7º e a 8º, ou até pior. Mas nunca achei que fosse ser como foi da 8º pra frente. Meu deus...


No começo do trecho encontramos subidas bem íngremes, a maior parte precisava da ajuda das mãos, o ar fazia falta principalmente pros músculos, chegamos à altura das nuvens, e considerando que elas estavam presentes, nós estávamos dentro delas. Estar dentro de uma nuvem é como sentir chover por todos os lados, a cabeça, os braços, o tênis, as calças, até a minha cueca chovia.


O pior é que o que estava sendo o pior até aqui não era o pior que estaria por vir. Nós estávamos sentindo os efeitos do cansaço, mas nós havíamos nos mantido muito bem alimentados e hidratados. Estávamos sentindo a falta de oxigênio e começamos a sentir frio, mas sabíamos que bastava chegar à próxima estação em uns 70 min e poderíamos descansar um pouco, respirar nossa lata, ir ao banheiro e se esquentar. Depois só mais outros 70 min e estaríamos no topo lá pelas 2h30 da madrugada.


Tudo veio abaixo quando demos de frente com o trânsito. Dessa vez não havia um obstáculo específico que formava o trânsito. As centenas de pessoas que víamos a nossa frente, e as outras que iam se acumulando rapidamente atrás de nós estavam praticamente imóveis, não andavam nem se esforçavam para subir uma parede. Elas simplesmente estavam paradas esperando que a pessoa a sua frente andasse pra que ela pudesse então andar. O problema é que a pessoa da frente tb tinha pessoas na sua frente, que tb tinham “malditos filhos da puta que não queriam andar” adiante.


Desde pequeno eu me pergunto: “pq os caras que estão lá na frente do trânsito não andam para que todos possam andar e seguirem pra sua casinha?”. Percebi com o tempo que às vezes algum acidente ou afunilamento causava trânsito, mas havia outras vezes que o trânsito simplesmente não tinha explicação, e seguia e seguia se seguia sem fim...
Desculpem-me os de valores católicos, mas chegou uma hora que eu simplesmente estava desejando muito que algum acidente tivesse acontecido, para garantir que depois daquele ponto tudo voltaria a andar normalmente. Porque desejo tão desesperado?


Imaginem todos aqueles fatores de desconforto que citei: nuvens, cansaço, falta de oxigênio, etc.


Agora adicione a isso o fator vento, vento forte, vento muuuito forte. Retire todo o calor que produzíamos por estar em movimento constante. Subtraia todo o animo de saber que daqui a pouco estaríamos na próxima estação e depois no topo (não tínhamos como prever quando aquilo acabaria). Adicione um desespero claustrofóbico de não poder se mexer, nem continuar subindo, nem desistir e começar a descer. Estávamos presos, à mercê do movimento da massa imóvel à nossa frente. Incapazes de nada, indefesos para o vento que arremessava cruelmente as nuvens à nossa volta nas nossas caras, como se dizendo: “aqui quem manda sou eu, vc não tem pra onde fugir, não tem pra onde correr, mal pode se mover, e se eu quiser vc vai morrer aqui em cima, de frio, hipotérmico. Vc não pode ligar seu aquecedor, não adianta pedir pro cara da sua frente dar licença pra vc, pois cada um que está aqui está sentindo minhas nuvens na sua cara e está a um passo de entrar em desespero”. O vento estava certo. Ele não dizia todas essas palavras que eu transcrevi. Mas era o que ele queria dizer com seus gritos dentro da minha cabeça: “VUUUUUuuuuusshhh!! vvvvvUUUUUuuuuUUSSSSSHhhh!!!!”


Passaram-se 4h nessa situação. Andando poucos centímetros a cada minuto. Eu já havia perdido as esperanças de que houvesse um acidente adiante. Eu sabia que seria assim até o topo, talvez nem desse pra entrar no topo por estar muito cheio. Eu já nem queria mais chegar até o topo. Eu queria um cantinho em que pudesse me esconder do vento sem ser pisoteado. Eu queria estar em casa. Queria poder me tele transportar para qualquer lugar que não fosse lá. Eu cheguei a achar que não ia agüentar. Eu ia tombar. E se um helicóptero não fosse me buscar não teria modo de eu sair de lá vivo.


Eis que o sol começou a nascer. Um laranja maravilhoso começou a surgir cobrindo todo o horizonte oriente do céu. Eu podia ver de ponta a ponta esse lado do céu pois estávamos bem em cima das nuvens. Nós praticamente estávamos pisando nelas. Sabe o que eu senti? Raiva, uma raiva imensa. Uma fúria absurda direcionada para cara filho da puta que esteve e que continua parado na minha frente. Eu queria começar a empurrar cada um deles para fora da trilha, lá pra baixo, onde nunca mais poderiam me atrapalhar. Era pra estarmos no topo as 2h30 e já eram mais de 4h. Não tínhamos nem passado pela estação 9º.


Eu não tinha nem como admirar aquele nascer do sol. Eu não conseguia me posicionar de modo a poder curtir ele de forma confortável. Ele importava muito menos do que o fato de que ainda existiam centenas, senão milhares de pessoas entre eu e um lugar que eu pudesse sentar e me esquentar. Eu queria estar no topo quando o sol nascesse, com as câmeras posicionadas. Na posição que eu estava eu queria mais era que o sol se fodesse, junto com cada idiota que insistia em ficar imóvel na minha frente. Nós havíamos falhado.



Pouco depois minha fúria diminuiu sensivelmente e eu pude ser grato ao sol, que se não estava esperando eu chegar ao topo para nascer, pelo menos tinha o incrível poder de amenizar o frio que eu sentia. Ele não resolvia o problema. Mas agora que estávamos acima das nuvens e com o dia começando a raiar, a morte não parecia mais estar fungando em nossos pescoços.



Aqui termina a parte II.

4 comentários:

Passarinho torto disse...

Ahhh, que delicia de postagem, vou ver os videos agora, achei linda a experiencia!!... sabe; no nosso reencontro teremos tantas coisas nos olhos que nem sei como vamos nos atualizar!!


amo vcs!!!

Passarinho torto disse...

era eu gabi

lcattapreta disse...

cara, vcs são as pessoas mais fodas que eu conheço, só digo isso. tô muito impressionada com toda a experiência de vcs aí. beijo!

Fecespedes disse...

Tinha um técnico de basquete que sempre reclamava que a gente perdia as tampinhas das garrafas de água durante os jogos, ele dizia: "Como vcs querem ser campeões se perdem até as tampinhas da água?". Depois de ler este post, finalmente entendi o ensinamento...

Beijos procêis e divirtam-se!