quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Nós praticamente sobrevivemos! - Parte 3: Apogeu e Queda

Depois de toda aquela subida, que iniciou numa decida; depois de fazer a maior confusão com as estações; depois de beber forçadamente 1/2L d’água (e dar sentido ao que o técnico do lulo falava); depois do trânsito nas nuvens a 3mil metro de altura (nunca mais reclamo da marginal); depois de sentir a morte falando pertinho e de entender porque o sol significa esperança... nós tínhamos que descer tudo de novo!

Mas antes vamos chegar lá em cima direitinho:
Vimos aquele PUUUUTA espetáculo que é o nascer do sol sobre as nuvens. Na hora eu só pensava “graaande bosta, de dentro do avião eu vi algo parecido sem correr o risco de morrer de hipotermia (essa é pra vc, popô!)”. Eu também queria que o sol fosse pra puta que pariu e me levasse com ele, porque qualquer lugar seria melhor do que aquela merda de vulcão gelado. Mas o fato do sol ter clareado aquele inferno cheio de “rolling stones”, o fato de ele ter diminuído o frio que sentíamos e o fato de que eu tinha passado por aquilo tudo pra ver o bendito nascer, me fez dar uma olhadinha praquele momento único. Sacamos as câmeras, apesar de estarmos com vontade de na verdade sacar uma bazuca, e começamos a registrar aquilo, como bons audiovisuais que somos. E tudo parecia um pouco melhor...unh, menos ruim pra falar a verdade.

Mais do que aquele laranja avermelhado que cobria o horizonte, eu admirava o próprio horizonte. Conseguíamos ver todo o horizonte num ângulo de 180º! E conforme o sol foi subindo conseguiríamos ver tudo ao redor (caso a gente conseguisse virar o pescoço e não houvesse um vulcão atrás de nós, ou seja, no topo onde queríamos estar). Mas era lindo, maravilhoso, aquele horizonte todo coberto do vermelho do sol, refletindo nas malditas e úmidas nuvens. Incrível! Mas ninguém festejava, ninguém comemorava (nem os que chegavam ao topo), no máximo ouvimos uns “ôôh” dos japas quando o sol começou a nascer. Ninguém tinha energia nem motivos pra comemorar, ainda estávamos completamente fodidos. Comemoração só em casa!

Bom, o famoso nasceu, nós havíamos fotografado e gravado tanto quanto possível, agora era hora de seguir caminho pra merda do topo! Guardamos tudo e saímos do “puleiro” onde estávamos, claro que sem nenhuma facilidade. Pra sair do nosso cantinho tivemos que engatinhar até conseguir voltar à trilha em “segurança”. Em dez ou 15 minutos chegamos ao topo! Agora que o trânsito tinha se dissolvido era tão rápido chegar no topo...

Não é que conseguimos? Então podíamos procurar um lugar quentinho pra ficar. A primeira coisa que vimos lá em cima foi um cara vendendo latinhas de café e chocolate quentes. Compramos e entramos num barracão que estava atrás do cara. O tal barracão era aquecido!! Procuramos um lugar apertadinho nos longos bancos de madeira, nos sentamos, tiramos as malas das costas e tomamos nossa bebida quentinha... unh, que delícia!!! A bebida estaria entre morna e fria nos padrões normais de temperatura, mas nessa ocasião eu queimei meu lábio por causa do choque térmico entre o vento gelado e a bebida “quente”. Tudo bem, como diria minha mãe: o que é um peido pra quem ta cagado?
Ficamos provavelmente mais de uma hora nesse barracão bizarro. Ele tinha vários bancos de madeirar compridos onde as pessoas se amontoavam e, de vez em quando, passava uma japonesa ou japonês gritando alguma coisa. Esses eram garçons que estavam entregando a comida a quem pediu. Como eles esqueciam quem tinha pedido, eles gritavam o nome da comida e a pessoa se identificava. Aproveitamos e pedimos a sopa e o arroz mais caros da nossa vida, mas também os mais desejados.
O Del, logo depois de fazer o pedido, saiu para ir ao banheiro e demorou muito. Eu estava ficando preocupada, afinal estávamos no topo dum vulcão, sei lá que tipo de coisa poderia ter acontecido. Já houve casos até de pessoas “assopradas pelo vento” para fora do Fuji (e da vida, claro). A comida chegou, eu tomei toda a sopinha e acabei de queimar o resto do lábio enquanto o arroz do Del esfriava. E esfriava mais... e eu preocupando. Eis que o Del volta com o Gustavo (nosso amigo da Sony) dizendo que ficou aquele tempo todo na fila do banheiro e que quase não pode fazer xixi porque havia um cara na porta cobrando 200 ienes de cada pessoa e o Del não tinha nada. Eis que ele avistou o Gustavo e pediu um trocado pra mijar. Nesse momento o Del me falou que as pessoas ficavam na fila pra usar a cabine, mas que ele cortou fila e usou o mictório mesmo, mesmo com a fila passando bem atrás do mictório e vendo tudo. Eu fiquei pensando porque os homens esperavam na fila sendo que eles sempre vêm uns aos outros usando o mictório...
Uns instantes depois eu voltei a ser gente, me recuperar do desespero da subida e olhar ao redor. Percebi que nosso refúgio quentinho na verdade não era tão quente assim: eu ainda estava com as duas blusas e as luvas eu usei na subida e não estava sentindo o menor calor. Eu estava confortável no “quentinho” com duas blusas! Nesse momento tentei imaginar qual seria a temperatura real da bebida e da comida quentinhas.
Tomei coragem, peguei duzentão e fui ao banheiro. O Del havia instruído “depois do trator (!) e das casas de pedra” e lá fui eu procurando o banheiro, querendo voltar pro meu quentinho onde não ventava. Achei uma fila e imaginei que seria lá o banheiro masculino, decidi procurar o feminino. Pela lógica estaria do lado ou atrás... hunf, tolinha. Aquela fila, a famosa fila que passava ao lado dos mictórios, estava cheia de mulheres também. O banheiro era misto, claro. Só eu queria encontrar dois banheiros no topo do vulcão. Pensei “quer um ar condicionado também, benzinho...?”. Entrei na fila e esperei uns 10 minutos na sombra, com vento, congelando meu xixi. Paguei os 200 e, por falta de habilidade, esperei pra usar a casinha mesmo, mas eis que me deparo com.... A MOTOCA! Nããaããooo! Deus, por quê? O que eu fiz pra merecer uma motoca com chão sujo no topo do Fuji? Hunf... adaptando o ditado da minha mãe: “o que é uma motoca pra quem tá menstruada (num vulcão)?”
Alimentados, mijados e descansados (tudo com a relatividade inerente a essa aventura) fomos conhecer o topo dum vulcão. Confesso ter ficado um pouco decepcionada com a cratera. Ela é impressionante, mas eu imaginava um buraco bem fundo ou cheio d’água, não aquele amontoado raso de pedra. Mas depois reparei que ela é bonita mesmo assim. Lá ao redor da cratera (que é protegida por correntes pra ninguém pular lá dentro) encontramos mais gente da Sony. As meninas, que chegaram lá em cima acreditando no “devagar e (quase) sempre” e o Eric, que quase morreu no caminho também e ainda estava em choque. Confesso que foi um maldoso conforto ver os meninos num estado semelhante o meu. Se até o cara que foi 7 vezes campeão paulista de karatê achou que ia morrer na subida, porque eu sobreviveria ilesa?

Subimos mais um montinho que fica no topo e observamos bastante aquela paisagem pra nunca mais esquecer: o topo do Fuji cheio de construções de pedras parecendo uma civilização inca (não fosse pela máquina de refrigerante), as nuvens que pareciam tão amistosas de cima mas são tão cruéis por dentro, os restaurantes com bandeiras do Brasil. Tiramos todo tipo de fotos e fizemos gravações mandando beijo prum monte de gente. Ah, finalmente ligamos pros nossos pais desejando feliz dia dos pais de cima do Fuji! Que dia dos pais... Eu, no lugar deles, estaria orgulhoso. Eu, no meu lugar, queria estar no lugar deles!

Começamos a decida. Já eram talvez umas 9hr da manhã e algum tempo atrás o Del havia falado “espero que a decida seja fácil”. Eu respondi “tem que ser!”. Não era.

Claro, era mais fácil que a subida, mas tava longe de ser fácil. Primeiro: ainda estávamos sobre as nuvens, que desceram pra cidade, e agora o acolhedor sol era novamente um filho da puta. Não bastasse ter nascido antes da gente chegar no topo agora ele torrava nossa cara e nossas costas com seus raios ultravioletas direto na nossa pele. Fomos tirando as blusas e colocando na mala que estava nas minhas costas... Segundo: é muito íngreme! Não tanto quanto a subida, que seria impossível de descer andando, mas eram ladeiras absurdamente íngremes e em zigue-zague. Daquelas ladeiras que ou você desce travando o joelho a cada passo ou você solta o peso do corpo e desce correndo pra ver onde vai dar. Nas curvas do zigue-zague tinha até uma area de escape pros mais ousados (como o Del, claaaro) que tentavam descer correndo. Era mesmo mais fácil, mas estávamos a 3mil metros de altura! Terceiro: não há vida no topo do vulcão. Nem uma graminha. A vegetação começa a aparecer por volta de 2,600 mil metros. Até aí é só pedra e terra. Agora adicione aquele vento absurdo da subida à terra que sobe a cada passo de cada pessoa na descida! Resultado: boca preta, nariz preto, remela preta, catota preta... eu fiquei tirando terra da minha orelha por vários dias.

O meu ponto preferido: o pé! Aquela areia toda, muito amistosa, resolveu adentrar o meu tênis. Aliás, a meia também. Qui dilícia! Cada passo era brecando, ou seja, o pé deslizava por dentro da meia, que por sua vez deslizava no tênis. O dedão dava aquela “cabeçada” no bico do tênis e a unha encravava... ai, Deus, por quê? Ah, havia uma outra forma de pisar, que era fincando o calcanhar no chão, poupando a parte dianteira do pé e fodendo a traseira...

Cara, várias vezes eu empaquei. Falei “não agüento mais, meu pé ta doendo, eu to cansada, eu quero minha casa, eu quero minha mãe.” Se eu tivesse força eu até teria chorado. Me lembrei de uma aventura escoteira em que, perdidos no meio do mato, sem comida, sem sinal no celular e sem esperança, eu queria fazer a mesma coisa: sentar e chorar. Mas em nenhum dos dois casos adiantava nada. Não tinha como ninguém me tirar daquela porra de vulcão a não ser eu mesma. E nesse caso, diferente da aventura escoteira, eu sabia o caminho. Fazer o quê? O negócio era andar.

Numas das paradas eu tirei meu tênis para tentar colocar algodão no dedão e amortecer as batidas. Não adiantou nada. Mais pra frente tirei o tênis de novo pra arrancar o tal do algodão e limpar um pouco da terra. Amargo arrependimento! Graças a Deus já estávamos perto do fim e as nuvens já amenizavam o sol no lombo, mas quando eu tirei o tênis senti uma dor absurda. Apalpei meu calcanhar e percebi a mais bolha que eu já tive. Imensa, doendo demais, no meu calcanhar cheio de areia e o pior: sem tênis. Eu precisava colocar o tênis de volta, mas não conseguia. Eu tentava estivar o tênis pra ele não raspar na bolha e nada. Arrebentamos o elástico do tênis (que não tinha cadarço) e mesmo assim não entrava. Sugeriram que eu pisasse na parte traseira do tênis, mas isso ia acabar com a sola do meu pé. O negócio foi enfiar o tênis a força mesmo... ai, aí eu chorei...

Nesse momento passou um grupo de turista iniciando a subida e o guia nos falou que estávamos perto do fim. Eu queria gritar praquelas pessoas “não façam isso, vc vão se arrepender, é ruim demais”, mas os japas não iam me entender. Eles devem ter entendido bem a minha cara preta de terra, queimada de sol, com os olhos úmidos. Ah, sobre o meu cabelo eu prefiro me abster. Basta falar que o Del parecia grisalho, pois ele havia passado creme antes de sair de casa e a areia grudou toda no cabelo dele.

Nesse final de descida encontramos vários tristes cavalos que ficavam subindo e descendo, fazendo um “táxi” pros que estavam desgastados demais prá terminar. Eu me incluía nessa categoria, mas já tinha chegado até ali, não ia me render tão perto do fim.

Várias vezes na descida achávamos estar perto do fim e quando ele finalmente chegou eu dei um gás maior, largando o Del e o Gustavo (que estava carregando minha mochila desde o episódio da bolha) pra trás. Eu queria sair daquela merda o mais rápido possível! Chegamos de volta na 5ª estação, onde o pesadelo tinha começado no dia anterior. Ficamos sentados um tempão até ter coragem de ir procurar nosso ônibus. Os meninos se alimentaram, eu comprei lembrancinhas prá mim, nos despedimos do pessoal e embarcamos, eu e o Del, no ônibus que nos levaria de volta à “civilização”. 45 min depois descemos na estação da cidade e decidimos pegar um ônibus direto pra casa, ao invés de repetir a peregrinação entre trens que havíamos feito na ida. Grande escolha! Pegamos o ônibus, no qual havia também um chefe escoteiro japonês com 3 castores (escoteirinhos de menos de 7 anos) e dormimos até chegar no ponto final. Ah, antes de pegar o ônibus eu passei no banheiro da estação e lavei a cara, tirei o batom preto que a terra tinha formado e não fiz nada com o cabelo, seria inútil.

Descemos no ponto final e pegamos mais um metrô até em casa. Que delícia que foi ver nosso minúsculo e “embaratado” apartamento. Além de baratas ele tinha também uma banheira, um chuveiro e uma cama! Tudo o que precisávamos. Depois de cortarmos o meu tênis com tesoura, já que ele não saía do pé de outra forma, largamos as roupas e mochilas na área de tênis (que toda casa japonesa tem, já que dentro de casa só se anda descalço) e fomos direto pro chuveiro. Tomamos um looooongo banho de umas duas horas, no qual o Del teve a divina paciência de desembaraçar meu cabelo enquanto eu dormia na banheira, e fomos direto pra cama! Dormimos muitas horas, que só não foram melhores porque mal conseguíamos mexer as pernas, a pele estava queimada de sol e minha bolha ficava batendo em tudo...

Ps.: post dedicado à minha bolha, que me acompanha ainda hoje (um pouco mais reclusa, é verdade)

Ps2.: não gravamos nem fotografamos nada depois de começar a descida, pois não tínhamos mais forças e as câmeras morreriam com a poeira do lugar (na verdade, depois percebemos que elas sofreram mesmo sem tirarmos elas do case).
Ps3.: nem digo se valeu a pena ou não, mas essa história é inesquecível!

Um comentário:

Anônimo disse...

tá, eu devo ser o único retardado que mesmo lendo o diário de vcs ainda teria vontade de subir o Fuji... hehe