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domingo, 29 de julho de 2007

O Útimo Dos Choreis

Com lincensa, mais uma vez invado o blog da carol para uma postagem.

Como vc’s já sabem, existem várias normas a serem cumpridas para poder se trabalhar no setor que trabalho. Nas últimas semanas essas normas conseguiram se “entosquear” (para quem não sabe, é o verbo de onde provém a palavra: tosco) bastante.
O dia começou com uma das já citadas reuniões de começo e fim de dia em que na maioria (maioria: sinônimo de totalidade) das vezes só servem para sofrermos tentando segurar as risadas depois que eles começam a repetir as mesmas coisas de ontem na ordem em que apostamos que eles fariam.
Vou chamar aqui os dois personagens falantes de Mário e Luigi, pela similaridade física dos meus personagens com os famosos da Nintendo, para tentar reproduzir a última de suas reuniões (aqui no Japão são chamadas de chorei):

Um grupo de cinqüenta espermatozóides (que também podem ser considerados como pessoas com seus macacões de trabalho) se posiciona em roda ao redor de Mário e Luigi. Como o espaço não é muito, ficam parecendo um bando de lêmures com suas cabecinhas levantadas para tentar escutar o que vai ser dito ali na frente. Alguns não tentam tanto assim...
Mário dá uma cotovelada em Luigi, como se estivesse pedindo pra ele começar, Luigi dá uma cotovelada em Mário, como se não quisesse começar e querendo que Mário começasse. Mário começa:

- Bom dia pessoal (são 20h25 no horário local). Hoje as linhas estão meio paradas, então não é pra ficar conversando ou andando pra lá e pra cá quando não tiver serviço. Quando não tiver peças, tudo bem ficar parado, mas quando tiver peça eu quero que vocês trabalhem o mais rápido que puderem. (Nessa hora eu fiquei muito feliz de ter ganhado o direito de não passar peças enquanto estas não existirem).

Mário olha para Luigi, como se perguntando se existia mais alguma coisa a ser dita, Luigi cochicha algo na orelha de Mário, que se põe a falar novamente:

- Ta chegando muita reclamação por causa de peças que estão dando furio (não boas) por causa de sujeira dentro delas, por isso que a partir de ontem tivemos que passar a usar a luva por cima da manga do uniforme. Eu sei que é chato ficar pedindo isso, mas eu quero que o pessoal se preocupe mais com a questão da sujeira, por que se não a fábrica vai obrigar a gente a começar usar aquela toca que alguns japas já estão usando.

Essa touca consiste em uma touca igual a que a gente já usava, com a máscara que a gente já usava por baixo, mas com uma parte de pano que cobre a boca, que já estava coberta pela máscara de papel. Além disso essa touca é quadrada e não redonda como a forma das cabeças normalmente encontradas por aí no mundo, excetuando-se aí os nossos compatriotas cearenses, fazendo todo mundo que a usa parecer-se com aquele inimigo do He-man que pula pra caramba, é baixinho e eu nunca lembro o nome dele.

- Bom, então é isso, bom trabalho pra todos. – diz Mário.

Mas quando todos começam a dispersar:

- Péra só um pouquinho pessoal. – diz Luigi com seu sotaque de japonês misturado com espanhol da região da capital do Brasil.

- Então vamos colaborar, né? Porque tem que entender, né? A gente entende o lado de vocês, né? É ruim quando fica sem peça...sem serviço, né? Mas vocês têm que entender nosso lado também né?

E ele continua:

- E essa coisa da limpeza né? Porque...como é que vai fazer? Se não melhorar, o pessoal vai fazer usar essas tocas aí né? Vamos lembrar de usar a luva certinho né?

E ele vai...:

-Tá bom? Entendido né? Porque a gente sabe que é ruim, mas tem que colaborar com a gente né? Fica ruim pra gente ficar pedindo também né?

Luigi então olha pra Mário, que balança a cabeça. Segue-se alguns segundos de silêncio, até que Luigi diz:

-Então é tudo por hoje pessoal, bom trabalho pra todos.

Os espermatozóides se dispersam em direção aos seus locais de trabalho.

O dia segue com eu me questionando o porque de termos que usar a luva por cima da manga do macacão, sendo que os furios que estavam saindo devido à sujeira encontrada dentro da peça, só poderiam acontecer no momento em que a peça estava aberta, que era antes de ela chegar na nossa sessão.
Depois do último intervalo surgiram uniformes novos nos nossos armários, eles continham tocas num modelo diferente do que usamos nos últimos 3 meses. Elas eram quadradas, elas tinham um pedaço de pano tampando a boca que já estava tampada por um pedaço de papel, elas eram bem parecidas, se não iguais, as que foram usadas para nos ameaçar caso o problema de micro pedaços de pó dentro da lente não fosse resolvido.
Pelo jeito a ameaça foi feita tarde de mais, e a decisão de todos usarem aquela máscara já havia sido tomada há tempos, mas para que não parecesse só mais uma medida de segurança para que nossas bocas se mantivessem duplamente tampadas, nossos queridos líderes resolveram colocar como uma punição por não termos resolvidos em algumas horas o problema de sujeira dentro da lente que acontece no estágio anterior ao nosso da produção das câmeras.
Fiquei aguardando o fim do dia, curioso para saber o que eles diriam quanto à adoção das tocas do inimigo pulante do He-man.
O fim do dia chegou, todos em volta dos irmãos Mário, Luigi dá uma cotovelada em Mário, Mário dá uma cotovelada em Luigi, que começa:

- Bom pessoal, hoje o dia foi bom né?

Luigi então olha pra Mário, que balança a cabeça. Luigi segue:

- Então é isso pessoal, bom trabalho pra todos e até amanhã.

Mário corrige:

- Bom descanso, né pessoal?

Ninguém mais ri, porque até mesmo esse ato falho é repetido diversas vezes durante a semana.

Os espermatozóides, que neste momento parecem mais com o gado da música do Zé Ramalho, correm em direção à porta de saída, que é a mesma em que as pessoas do turno da manhã entram. Pessoas essas que além de terem que entrar pela mesma porta em que queremos sair ainda têm que tomar de 5 em 5 o maldito banho de ar de uns 20 segundos.

Foi a última vez que fui embora da fábrica.

PS: esta é uma estória de ficção, qualquer semelhança com a realidade é “meres” coincidência. As imagens aqui apresentadas são montagens feitas em computador, pois é terminantemente proibido tirar fotos dentro da fábrica, e se eu fizesse isso eu poderia ser processado por espionagem.

sábado, 28 de julho de 2007

Como era o nosso 1º trabalho...

Estou invadindo o blog da Carol pra postar como era o cotidiano do nosso trabalho na fábrica da Sony.
É um email que escrevi no primeiro mês que estávamos aqui que estou copiando para quem não leu ter a oportunidade.
Beijos, del

Como não podia deixar de ser a nossa vida aqui tem se resumido ao trabalho, então tá tudo bem pq esse era o planejado pra esse momento.
Todos os dias acordamos as 19h00 horário local, tomamos café da manhã, nos arrumamos e pedalamos por 10-15 min pra chegar na Sony as 20h10, mostramos o crachá da nossa empreiteira pro porteiro (afinal ã Sony não nos tem como funcionáios deles, somos funcionários da nossa empreiteira que é terceirizada) batemos o cartão, colocamos um colete que tem um crachá com nosso nome escrito em Katakana (esses são os caracteres usados para escrever palavras estrangeiras), pois o nome Itocazo é abrasileirado...
Assim que colocamos o colete e trocamos nosso tenis por um sapato deles (anti-energia-estática), nós subimos um andar e entramos num vestiário para tirar o colete e o sapato que acabamos de colocar (isso mesmo, nós usamos o colete que acabamos de colocar e o sapato que acabamos de trocar por aproximadamente 1 minuto). Em seguida entramos num outro vestiário aonde colocaremos um macacão, uma máscara igual aquelas de enfermeiras, uma toca igual aquelas que mulher usa pra assustar o homem quando coloca creme no cabelo, e por cima da máscara e da toca, porém por baixo do macacão, uma toca maior que cobre tudo e completa a vestimenta que nos faz parecer o Shinobi, o ninja branco. (vou ficar devendo fotos pq posso ser acusado de espionagem se tirar foto lá, e isso é sério!)

Colocada essas roupas eu coloco um par de luvas de dentista e lavo e seco minha mão concorrendo por um secador com todos que querem entrar (nessa hora vc se pergunta: como assim, as pessoas estão afoitas em entrar para o serviço??? Calma tem explicação). Assim que consigo lavar minhas luvas corro para dois aparelhos onde vou testar se minhas botas (esqueci de escrever que colocamos botas cobrindo o macacão) estão funcionando anti-estaticamente bem e se meu assubando (droga, esqueci de falar que colocamos uma pulseira no meu tornozelo, que é plugada num fio que eu prendo no meu macacão, mas que depois vou prender na máquina, isso se chama assubando) está funcionando bem tb, no mesmo sentido que a bota quando se trata de energia estática.
Assim que ambos os testes dão OK eu, ou a Carol, procuramos nossos nomes numa lista e escrevemos que nossos testes estão OK. Se nossos testes não estiverem OK aí a estória é outra...Quando vc pensa que já enrolou demais pra começar o trabalho vc percebe que precisa brigar por um lugar num túnel de vento em que cabem 5 pessoas por vez, e que mesmo que ainda sejam 20h20 e que vc começe a trabalhar e a receber as 20h30 vc já está atrasado, pois vc precisa estar pronto, dentro da linha e olhando pros líderes (teoricamente eles são nossos chefes, mas vou deixar pra contar sobre eles num email exclusivo) as 20h25 no máximo pois todo dia é obrigatório fazermos um Chorei (reuniãzinha obrigatória mesmo que desnecessária) onde tomaremos uma comida de rabo por qualquer coisa do dia anterior e receberemos um pedido a ser cumprido no dia (na verdade na madugada) que começa. Agora vc deve estar pensando: "ah, mas duvido que eles façam tudo isso certinho todos os dias". Eu respondo.Como todos os bons brasileiros que somos (eu a carol e a metade do japão que é brasileira - obs: a outra metade é dividida entre filipinos, srilankeses, paraguaios, argentinos, peruanos, colombianos e qualquer outra nacionalidade que se disponha a trabalhar por um custo mais baixo que o de comprar um robo pra fazer o serviço - existem também algumas pessoas que nascem lá as quais chamamos de japoneses.) tentamos burlar as regras japonesas, entrando em 6, 7 ou um pouquinho mais no túnel de vento pra 5 pessoas, chegando um pouquinho atrasado ou deixando de fazer um dos testes exigidos... O problema é que qualquer brasileirisse como essas são rapidamente notadas (não entendo cmo eles percebem tão rápido que de dentro do túnel de vento saíram 9 ou 10 pessoas ao invés dos 5 permitidos) e serão prontamente advertidas com ameaças de cortes de zangyo (horas extras), essa é a hora que eu mais gosto, pois corro o risco de poder ir pra casa as 5h30 da manhã ao invés de às 8h30...mas pra maioria das pessoas isso é um castigo.


Quando chegamos atrasados, mesmo que 30s (juro, já tomei bronca por 30s de atraso), tomaremos comidas dos nossos líderes (que são brasileiros ou argentinos ou qualquer pessoa dessas que acham que o dia que eles compraram um BMW foi o dia que eles venceram na vida.). As únicas vezes que escapamos de uma comida por 30s ou mais de atraso é quando ambos os dois líderes nossos estão fora da linha, atrasadoa também ou tirando um soneca lá fora. Esse email já ficou grande de mais. Em outro email eu continuo contando como vão as coisas aqui.

Ps: liguem 3717-5704 pra falar comigo ou com a carol pagando só a ligação pra são paulo.